Perfil do paciente obeso: muitos obesos mórbidos já conseguiram emagrecer e até chegaram ao peso ideal, após internações em spas, dietas, atividade físicas e psicoterapia. Entretanto, a grande maioria recuperou o peso e alcançou patamares ainda maiores. A regra geral é o insucesso dos diversos tipos de tratamentos clínicos, principalmente quando se trata da manutenção do peso perdido em longo prazo. Apenas 20% dos que emagrecem conseguem manter o peso por mais de 1 ano, e somente 5% depois de 5 anos.
Culpa: O obeso, além de carregar todo o seu peso, freqüentemente carrega a culpa e a responsabilidade por sua obesidade. A nossa sociedade supervaloriza a magreza e promove julgamentos sociais negativos em relação ao obeso. Adjetivos como feio, relaxado e preguiçoso são ouvidos pelos obesos, como se eles fossem responsáveis pela sua obesidade por falta de vontade e autocontrole. Todavia, ninguém é obeso por escolha, e a obesidade não tem nenhuma relação com falta de vontade.
Alterações psicológicas: No desenvolvimento físico dos homens e mulheres os fatores psicológicos e sociais são importantes. A obesidade altera não só os aspectos físicos, mas também os psíquicos e sociais.
Na maioria dos obesos mórbidos há alterações psicológicas que são importantes no desencadeamento e manutenção da obesidade. O obeso tende a substituir os mais variados desejos pela comida.
O emocional é abalado pelas dificuldades, limitações, discriminações e pelo sofrimento de ser obeso.
Há pessoas que têm dificuldades na elaboração psíquica e associam ansiedade, depressão, medo, angústia e outros estados afetivos a modificações no padrão de ingestão alimentar. Quando enfrentam situações que provocam desequilíbrios emocionais – primeira menstruação (menarca), casamento, gravidez, perdas de parentes, separações – essas pessoas têm o impulso de ingerir grandes quantidades de alimentos, como escape para um alívio momentâneo da tensão interna.
Cirurgia bariátrica e as emoções: a cirurgia gástrica redutora provoca o emagrecimento e impossibilita o hábito do paciente de aliviar suas tensões internas pela ingestão volumosa de comida.
O emagrecimento acentuado provoca transformações e requer adaptações nos relacionamentos familiares, afetivos, sexuais, sociais e profissionais.
Entretanto, as dificuldades de lidar com as emoções não são modificadas pela cirurgia, e se não forem tratadas adequadamente a tendência é que outras “ saídas” sejam encontradas pelos pacientes, o que poderá impedir o sucesso do tratamento.
Cirurgia, psicologia e mudanças: O contato com o psicólogo se faz importante para a orientação, informação e o apoio ao paciente que vai se submeter à cirurgia. O paciente naturalmente está cheio de expectativas e muito ansioso, certo de ter encontrado a “solução mágica” para seu angustiante problema de obesidade, algo que vem procurando há tanto tempo.
A cirurgia é comprovadamente o melhor tratamento para a obesidade mórbida, mas o resultado dependerá da colaboração ativa do paciente no pós-operatório. A cirurgia reduz drasticamente o peso corporal, o que provoca mudanças importantes na maneira do paciente agir. Ele terá que se reorganizar, se reestruturar.
Os obesos mórbidos têm alta incidência de conflitos psicológicos, e necessitam de avaliação e tratamento por profissional capacitado. Isso é fundamental no pré- operatório, e muitas vezes também acompanhamento no pós-operatório.
A psicologia pode auxiliar o paciente a conhecer e a compreender melhor a si mesmo, a aderir de forma mais eficiente às recomendações médicas, envolvendo-se e tornando-se responsável pela criação de uma nova identidade, e pela participação efetiva no processo de emagrecimento.
O obeso depois da Cirurgia: A cirurgia não é um processo passivo. Ela provoca uma série de transformações que afetam a relação do indivíduo consigo próprio e com os outros. Tudo dependerá do modo como o obeso se relaciona com a comida, o lugar que a comida ocupa na sua vida: prazer, gratificação, agressividade autodirigida. Quando essa relação é bloqueada pela cirurgia, o paciente busca alternativas.
O corpo, que até então era ignorado, ou mesmo rejeitado, passa a estar em evidência e se torna alvo de elogios e comentários. Por outro lado, algumas dificuldades emocionais que estavam encobertas pela “capa de gordura” tendem a surgir e os conflitos básicos emergem.
Novas atividades sociais requerem uma nova aprendizagem. Muitas das responsabilidades de que eram poupados por falta de condições físicas e pelas limitações que a obesidade impunha, colocam os pacientes diante de situações nunca vividas. Na realidade, a obesidade era um manto protetor!
Deixar de ver a vida “passar pela janela” passivamente, para tornar-se agora participante ativo, pode ser angustiante e provocar ansiedades.
O papel da psicologia em relação à obesidade é, em alguns aspectos, muito mais artístico do que científico, porque auxilia a transformar opiniões, o que é uma forma de arte, de criação. A psicologia permitirá o paciente a ter uma nova visão do mundo, para que ele possa ousar um novo caminho.